Suça e Jiquitaia: persistência da tradição com apoio da Secult

Aos 74 anos “bem vividos”, dona Camila Martins observa os paços dos jovens e adolescentes que dançam enquanto ela entoa os cantos da suça. O grupo, formado atualmente por 16 jovens e adolescentes de três gerações.
por Maria José Batista
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A jiquitaia é uma das maiores tradições do povo remanescente de quilombolas na região de Dianópolis
- Foto: Divulgação/Secult file_download

Aos 74 anos “bem vividos”, dona Camila Martins observa os paços dos jovens e adolescentes que dançam enquanto ela entoa os cantos da suça. Aos olhos já um pouco cansados da matriarca não escapam os pés que perdem o ritmo quando a dança passa a ser a jiquitaia, na alternância que marca uma das maiores tradições do povo remanescente de quilombolas na região de Dianópolis, Sudeste do Tocantins. Dona Camila é quem comanda, com a voz, o ritmo da dança de três gerações presentes no grupo da comunidade Lajeado, distrito de Dianópolis. O grupo, formado atualmente por 16 jovens e adolescentes de três gerações, segue obediente a voz da matrirca, que afirma: “Não quero que meus netos e bisnetos sejam ignorantes como eu, que não aprendi as letras, só sei cantar. Eles têm que aproveitar as oportunidades, para ser alguém na vida, mas sem esquecer quem a gente é, de onde a gente veio”, diz dona Camila, desconhecendo a sabedoria adquirida em tantos anos de vida.

Uma das professoras da Escola Municipal do Descoberto, em Lajeado, é Selenita Gualberto. Neta de dona Camila, além de coordenar as atividades de preservação cultural no povoado, segue os passos da avó desenvolvendo a dança da Suça e da Jiquitaia também na escola onde trabalha. “A intenção é envolver toda a comunidade escolar, porque afinal, praticamente todos são remanescentes de quilombolas. São as nossas raízes, a tradição dos negros, de nossos ancestrais, que não podemos deixar morrer”, afirma Selenita, enquanto organiza o grupo para a primeira apresentação da programação da Secretaria da Cultura na sexta feira, 20, na Estação Dianópolis da Flit. Ela diz que é um trabalho árduo, mas que vale a pena, acrescentando que o apoio do Governo do Estado através da Secretaria da Cultura, tem sido determinante para seu trabalho. “No ano passado, nos apresentamos no Palácio Araguaia em Palmas. E creio que com esse apoio, será mais fácil perpetuar nossas tradições, porque os jovens se sentem mais valorizados e motivados a não deixar morrer a nossa memória” diz a professora.

Suça e Jiquitaia

Também chamada de sússia, a dança remete às origens das comunidades quilombolas no Tocantins e era parte das horas de descanso e diversão após dias de trabalho árduo. Já a jiquitaia deriva do nome de uma formiga que incomodava os trabalhadores durante a lida diária na roça quando, sem interromper o trabalho, eles sapateavam, passavam as mãos de forma impaciente pelo corpo e sacudiam as roupas tentando afugentar os incômodos insetos.

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