Palmas e o pioneirismo na arte e na cultura

As dificuldades, o amor e a paixão pela arte: A história dos pioneiros da cultura de Palmas, que com suor e lágrimas ajudaram a desenvolver a arte da capital
por Gilberto Aquino
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Primeira sessão da Assembléia Legislativa: a valorização da cultura tocantinense começava ali
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Na imensidão do espaço entre o rio e a serra, máquinas e poeira, ruas abertas e primeiros prédios Palmas também foi abrigo para os arautos das manifestações artísticas e culturais. Personagens que desempenharam um papel muito além do trabalho, do ofício em si. Eles se tornaram protagonistas responsáveis por divulgar, dentro e fora da capital e do Estado, a nova unidade da Federação.

Na bandeira dessa frente de luta, gente talentosa, abnegada e desprendida. Marcos Ruas, Éverton dos Andes, Márcio Belo, Lucinha Quilombo (agora Lúcia Rocha) e outros que realizaram uma caravana pelos estados da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo. Na bagagem, folderes, cartazes, revistas, livros e tudo o mais que pudesse divulgar a terra neo-emancipada.

Junto a esses pioneiros da música e das artes cênicas, num primeiro momento, outros artistas passavam a compor o universo, agora bem mais amplo, como Braguinha Barroso, Genésio Tocantins (ex-Sampaio) e Juraildes da Cruz, até porque estes já tinham suas raízes aqui. Diomar Naves, Mara Rita e Keila Lipi reforçavam o time. Cícero Belém e sua irmã Marcélia encorajaram o campo teatral, enquanto Pierre de Freitas abria caminho para as artes plásticas.

Como primeiro músico profissional a vir para Palmas, em 1990, Marcos Ruas gravou aqui três CDs e participou de vários projetos institucionais na área para o Governo do Estado e a Prefeitura de Palmas, além de inúmeros eventos que vão da solenidade da inauguração do Palácio Araguaia a prédios de secretarias, empresas públicas e avenidas.

Hoje ele reconhece que “o Tocantins se desenvolveu, a cidade cresceu e agora temos cabeça para discernir essa evolução”, observa, para dizer que por todo o esforço despendido em prol da construção e consolidação da capital “estamos colhendo os frutos daquilo que procuramos fazer com todo desprendimento”, avalia o artista.

Ruas prefere não entrar no mérito estritamente político de administrar e, apesar de reconhecer o que foi feito de positivo pelos demais gestores estaduais na área cultural, assinala que “esse governo (Siqueira Campos) tem um critério, sensibilidade e mais inteligência para mexer com esse lado”, diz.

Luta que valeu

A mensagem que transmite aos palmenses é para que “façam da persistência sua bandeira de luta por que todos nós passamos, por que vale a pena. Permanecemos na estrada, para que possa se contar a história às pessoas que virão retratar a cultura de todos nós tocantinenses. Não há dúvida que esses 22 anos valeram muito para minha carreira profissional na cidade”, assegura.

Lúcia Rocha, que era Lucinha Quilombo, coreógrafa, atriz, bailarina, produtora cultural e uma “quase-artista-filósofa”, acrescenta brincando, mas que na essência é a mais pura verdade, cursa o 4º período de Arte e Filosofia na UFT (Universidade Federal do Tocantins). Ela foi canal e mensagem, responsável pela encenação do espetáculo de abertura da Assembléia Estadual Constituinte, em Miracema, no dia 5 de outubro 1988. Como tantos outros, fez e viveu História.

Literalmente, na nova capital, a então Lucinha Quilombo, além de ser a primeira artista em sua área, foi também a primeira produtora cultural contratada da TV Palmas, antiga Comunicatins, que constituiu a Redesat. E como produtor geral da programação da emissora pública o não menos pioneiro, jornalista Luiz de Carvalho.

Lembrando um pouco do que foram os programas da Rádio Nacional e dos primórdios da TV Tupi, com seus programas de auditório, a artista-produtora Lucinha mostrava para os telespectadores danças e coreografias da cultura negra e indígena, no “Encontro Cultural” que sucedeu o “Raízes da Terra”. A performance, com poucos recursos técnicos mas uma carga imensa de vontade, dava mais vida à apresentação dos músicos convidados. E foi assim, com a coreografia do Catirandê, de Braguinha Barroso, o mesmo que fez, em parceria com Neuzinha Bahia, a “Canção de amor a Palmas”, que se tornou o hino oficial da capital.

Todavia, apesar de dizer que tenha sentido na pele que “umas pessoas procuraram me desconsiderar e me deletar da memória cultural”, Lúcia (Quilombo) Rocha, hoje desempregada, mostra ser mesmo pessoa de fibra. Não guarda mágoas mais significativas, trabalha de forma arrojada em projetos de cultura, pois “tenho que me adequar aos fatos, à necessidade de compreender e ser compreendida dentro da diversidade”. Contudo, lamenta que o alcance e o significado da cultura tenham “ficado meio adormecidos nos planos daqueles que decidiram o destino dos tocantinenses nos últimos tempos”.

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