Efluente tratado por fossa biodigestora serve de adubo orgânico para agricultores familiares do Tocantins

A solução tecnológica visa a preservação do meio ambiente com a destinação adequada e a reciclagem do uso dos macronutrientes: nitrogênio, fósforo e potássio aos plantios
por Geórgya Laranjeira Correa e Stefani Cavalcante/ Governo do Tocantins
-
A pesquisa revela a importância da estruturação do laboratório através do convênio Estruturante com apoio dos Governos federal e Governo do Tocantins por meio da Fapt, o que viabiliza o desenvolvimento dos estudos. - Foto: Gilson Araújo de Freitas - Engenheiro Agronomo

Um estudo comprova que o efluente de esgoto tratado gerado na fossa séptica biodigestor é um biofertilizante que pode substituir a aplicação do nitrogênio sintético na adubação de pequenas lavouras de produtores rurais.  O adubo orgânico, como assim é popularmente conhecido, está sendo utilizado em um projeto modelo executado na região sul do Tocantins pela Universidade de Gurupi (Unirg) e conta com o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), uma parceria dos Governos Federal e estadual por meio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Tocantins (Fapt). 

O estudo coordenado pela Mestre e doutoranda em Produção Vegetal, Miréia Aparecida, docente da Universidade de Gurupi (Unirg), implantou mecanismos sustentáveis e viáveis no Assentamento Vale Verde no município de Gurupi. No decorrer da pesquisa houve a colaboração diversos pesquisadores, acadêmicos de iniciação científica das áreas de Agronomia, Farmácia e Enfermagem; do mestrado e doutorado em Biodiversidade, Produção Vegetal, Solos, Ciência dos Alimentos, Ciências Biológicas, Biotecnologia e Microbiologia.

Em virtude da falta de acesso ao saneamento no meio rural, uma alternativa utilizada é a fossa séptica biodigestora que evita o lançamento dos dejetos no meio ambiente ou em lugares onde as residências não possuem um sistema de saneamento básico. Com a construção da fossa é possível impedir que os dejetos sejam jogados em locais como rios, córregos e solo. Esse tipo de tratamento permite a redução de casos de doenças oriundas de bactérias de águas contaminadas.

“Além de alternativa ao fertilizante sintético, o uso do adubo orgânico gerado pelo sistema de saneamento básico rural visa a preservação do meio ambiente com a destinação adequada e a reciclagem do uso dos macronutrientes: nitrogênio, fósforo e potássio (NPK).  Além de melhorar a qualidade do solo e a sustentabilidade dos sistemas agrícolas. A tecnologia traz soluções importantes para o pequeno produtor: gera adubo orgânico para a lavoura e proporciona saneamento rural adequado às propriedades rurais que não possuem”, explicou o engenheiro agrônomo, Doutor em Fitotecnia/Melhoramento de Plantas, e atual presidente da Fapt, Márcio Silveira.

A produtora rural, Valdina Ramos, é uma das beneficiadas pelo sistema de esgoto biogestor e acrescenta a importância da inovação em sua propriedade. “O uso do efluente da fossa séptica tem sido bem-vinda, trata- se de um adubo de primeira qualidade para o solo, o que ajuda na produção de hortaliças e frutas com diferencial e ainda nos proporciona uma fonte de renda a nossa família”, destaca. 

Convênio Estruturante

O estudo científico da fossa séptica é fruto do apoio financeiro dos Governos federal e estadual através da Fapt que proporcionou toda a estrutura necessária em equipamentos que auxiliaram os pesquisadores durante todo o processo, tanto dos laboratórios da Unirg, como da Universidade Federal do Tocantins (UFT), campus Gurupi. Por meio do convênio Estruturante, foi possível disponibilizar veículos, computadores, materiais para produção de mudas e construção de fossa séptica, serviço de inventário de plantas medicinais, entre outros equipamentos que estão na Unirg. Já a UFT ficou responsável pela casa de vegetação climática de plástico, lupas estereoscópicas, estufa com renovação e circulação de ar e outros materiais. O projeto tem dez anos de existência e é tido como modelo.

“O projeto tem se consolidado através da melhoria da infraestrutura proporcionada pelo convênio, da formação de recursos humanos e transferência de tecnologia para os agricultores, o que representa a promoção da preservação da biodiversidade. Sem o apoio do convênio não seria possível a implantação da inovação nessa comunidade modelo, o que pode também ser utilizada em outras áreas rurais em potencial e assim fortalecer a agricultura familiar com geração de produto de qualidade e fonte de renda para as famílias”, ressaltou a pesquisadora. 

O que é fossa séptica biodigestora

É uma solução tecnológica de fácil instalação e custo acessível, trata-se do esgoto do vaso sanitário (urina e fezes humanas) que através da produção de efluente pode ser usado no solo como fertilizante (adubo orgânico) para plantas. A inovação não gera odores desagradáveis, não procria ratos, moscas, baratas e evita a contaminação do lençol freático. O sistema básico, dimensionado para uma residência com até cinco moradores, é composto por três caixas de mil litros, tubos, conexões, válvulas e registros.  

A tubulação do vaso sanitário é desviada para essa fossa, onde o esgoto doméstico, com o auxílio de um pouco de esterco bovino fresco, é tratado e transformado em adubo orgânico pelo processo de biodigestão anaeróbia. O adubo deve ser aplicado diretamente no solo e não deve ser usado em alimentos que são consumidos crus, como hortaliças, por exemplo.  Essa tecnologia é muito utilizada também pela Embrapa.

A pesquisadora Mireia aborda a importância da análise dos resíduos em laboratório. - Gilson Araújo de Freitas - Engenheiro Agronomo (8).jpg
Agricultora Valdina Ramos declara a satisfação de receber o apoio científico em sua propriedade através da visita da professora Mireia Aparecida (direita). - Divulgação Unirg
A pesquisadora Mireia (esquerda) ensina aos acadêmicos de forma prática o manejo adequado de condução do projeto em visita de campo. - Divulgação Unirg
keyboard_arrow_up