Governo do Estado do Tocantins
A população Krahô no Tocantins é de aproximadamente 831 habitantes que moram na região de Itacajá e Goiatins, sul do Estado. As aldeias lembram os sítios encontrados no médio Tocantins e apresentam estrutura em forma de anel, com habitações em torno de uma área vazia. Para os Krahôs, o pátio central, conhecido como ká, representa o coração da aldeia e é o local onde a tribo se reúne para dividir o trabalho e tomar decisões importantes para a comunidade. Pertencentes ao tronco Macro-Jê, eles têm suas aldeias divididas em dois partidos – o do inverno e o do verão - que se revezam no poder de acordo com os períodos de chuva e seca na região.
No final do século XVIII, os krahôs habitavam a região do rio Balsas, no Maranhão, quando foram registrados os primeiros contatos com a frente de colonização. Eles então recuaram para a margem direita do rio Tocantins, entre os rios Farinha e Manuel Alves, onde hoje é a cidade de Carolina (MA).
Como a maioria das tribos indígenas, os krahôs sofreram grandes perdas em sua população. A política de aldeamento significava, segundo a conveniência dos brancos, deportação e concentração de grupos indígenas em locais limitados, onde havia constante vigilância dos missionários destinados ao trabalho de catequese. Esses índios, concentrados em diferentes grupos, deveriam desempenhar trabalhos para toda a comunidade local.
Os krahôs viveram na aldeia de Boa Vista do Tocantins, fundada pelo frei Francisco do Monte São Vítor, em 1841, no município do mesmo nome. Dez anos mais tarde, havia nessa aldeia 2.822 índios, entre Apinayés e Krahôs.
Uma parte do povo foi levada à aldeia de Pedro Afonso, fundada em 1849 pelo missionário frei Rafael de Taggia. Pedro Afonso era um importante entreposto comercial da época e servia de rota fluvial pelo rio Tocantins, entre Porto Imperial e Carolina. Os krahôs viveram nessa aldeia perto dos rios Sono e Tocantins, mas os ataques e as doenças reduziram a população. No início do século XIX, eram quatro mil pessoas e, em menos de um século, o número foi reduzido para pouco mais de 500 habitantes.
Em 1940, os índios Krahôs sofreram um violento massacre desfechado por criadores de gado. As invasões persistiram por décadas e continuam vivas na memória dos habitantes mais velhos. Mas eles resistiram e preservaram elementos fundamentais de sua cultura, como os cantos, o corte de cabelo, o cultivo dos alimentos e, principalmente, a formação circular das aldeias, mantendo o equilíbrio cultural de seu povo.
Para eles, a terra pertence a todos os membros da tribo. Os casais preparam a roça para sua família, depois da colheita outros membros da tribo podem utilizar o mesmo local. O marido e a mulher podem doar aos parentes os produtos dos seus roçados, mas, em caso de separação, a mulher fica com a produção. Na roça, cultiva-se mandioca, batata, amendoim, abóbora e, principalmente, o milho. Eles negociam com os brancos, utilizando recursos que possam promover sua sobrevivência na relação interétnica.
A divisão de trabalho é feita pela separação de sexo e idade. Os homens cuidam da agricultura e das atividades guerreiras, caçam e pescam. Os caçadores, para serem bem-sucedidos, além de observar os locais e ocasiões propícias para a caçada, devem conhecer bem os hábitos dos animais para melhor procurá-los ou esperá-los. Também são utilizados recursos místicos. As mulheres fazem a coleta, plantam e cuidam da casa. As crianças imitam os adultos do mesmo sexo e os velhos são representantes da tradição, conselheiros e sábios.
A confecção de artesanato utilitário abrange os cofos para carregar lenha e alimentos, bolsas para viagens ou para colocar roupas e pequenos objetos, cuias, pilões, abanos e cestas. Os krahôs também produzem enfeites e instrumentos musicais para festas, como colares, flautas de cabacinhas e maracás, que são feitos pelos homens.
O material empregado na confecção do artesanato é retirado da natureza. São sementes, palha de buriti e babaçu, penas de pássaros e cabaças.
Os krahôs possuem dois partidos, ou duas metades. O Katam jê (que representa o inverno), e o Wakme jê (que representa o verão). Segundo a tradição, essas forças que estão presentes em tudo é que regem a natureza e o homem. Eles acreditam que todos os seres, animais, vegetais ou minerais, possuem alma, conhecida como karõ – que pode afastar-se do corpo. Quando morre um krahô, acontece a separação definitiva e depois o kraõ se transforma em animal. O menino Krahô recebe o nome geralmente de seu tio materno, enquanto a menina quase sempre da tia paterna.
Eles praticam seus rituais e celebrações com a mesma força que acreditam no equilíbrio das metades que regem suas aldeias. O símbolo sagrado que mantém a harmonia e o respeito dentro da comunidade é o khoyré, uma machadinha de pedra que o povo krahô tem como elemento importante para continuar a tradição e a vida. A Festa da Batata (panti) celebra a colheita e é realizada durante o verão, quando existe comida suficiente para alimentar todos que participarão dos rituais. A Corrida de Toras tem participação de homens e mulheres que correm com toras de buriti especialmente preparadas para cada tipo de festa. Os grupos que correm representam os dois partidos, o do sol nascente e o do sol poente. Na Festa do Milho (pônhê), os krahôs comemoram a fartura das roças.