Governo do Estado do Tocantins
Há dados históricos a respeito de uma festa, ainda hoje realizada em Portugal, chamada entrudo, onde só participavam homens usando máscaras - os caretos.
Acontecia no domingo gordo e na terça-feira de carnaval. Nestes dias de festa, os caretos só paravam para matar a sede ou para combinar novas investidas à praça central onde a população local e os forasteiros se juntavam para assistir ao ritual. Nesse período, o que prevalecia era a agitação e a indisciplina.
Na festa do entrudo, a máscara conferia todo poder aos membros do grupo. Eles saíam às ruas e ditavam as regras dos acontecimentos. Ninguém conseguia se opor à ira dos caretos. Apenas mulheres vestidas de homens, eram poupadas da investida dos caretos, que se lançavam de assalto às moças, encostando-se a elas, desenvolvendo uma dança erótica e fazendo embater os chocalhos, que trazem pendurados. No Tocantins, percebe-se que houve uma transposição do uso das máscaras para diversas festas, como o entrudo, a cavalhada, a festa de Nossa Senhora do Rosário, em Monte do Carmo, e a festa dos Caretas, em Lizarda e Angico.
Os mascarados, ou caretas como são chamados no Brasil, aparecem nessas festas com o intuito de definir as regras das manifestações. Pode ser como um ponto de partida para o início das festividades, como acontece nas cavalhadas e na festa de Nossa Senhora do Rosário; no entrudo em Arraias, definindo o ritmo da algazarra, ou na proteção da quinta em Lizarda.
Existem várias explicações para a origem do carnaval. Uma dessas versões diz que o carnaval tem origem no mundo cristão medieval, quando tinha um período de festas profanas que se estendia desde o dia de Reis até a quarta-feira de cinzas, quando se iniciavam os jejuns da quaresma. Essa festa foi introduzida no Brasil pelos imigrantes das ilhas portuguesas de Madeira, Açores e Cabo Verde.
Arraias, no sul do Tocantins, ainda realiza esse folguedo carnavalesco que consiste em lançar uns nos outros água, farinha, tinta, etc.
O entrudo de Arraias fazia-se com laranjinhas de parafina, espécie de bolinhas feitas de cera de abelha, com um orifício para enchê-las de água perfumada e depois atirar de surpresa nas pessoas. Com o tempo esse costume foi sendo transformado: a água perfumada foi substituída pela água pura e, às vezes, gelada, passando a ser jogada em pessoas do sexo oposto, numa verdadeira guerra dos sexos. Grupos de foliões saem às ruas ao som das sanfonas e outros grupos acompanhados pela banda da polícia militar. Os foliões batem de porta em porta à procura de pessoas para serem molhadas, aumentando o cordão carnavalesco do entrudo.
Os caretas são homens que usam máscaras confeccionadas em couro, papel ou cabaça, com o objetivo de provocar medo nas pessoas. Em Lizarda, participam da festa que acontece, tradicionalmente, durante a Semana Santa, na Sexta-Feira da Paixão.
Monta-se um cenário, um semicírculo com pés de bananeira, chamado pelos caretas de quinta atrativa, onde se coloca pedaços de cana de açúcar. Neste se desenrola um verdadeiro espetáculo teatral. Os caretas perseguem com pinholas - uma espécie de chicote feito de sola ou trançados de palha de buriti - as pessoas que tentam invadir a quinta para roubar a cana. A proteção da cana pelos caretas pode ter relação com a crença da população de que, no calvário de Jesus Cristo ele foi açoitado com pedaços de cana. Na encenação, os caretas tentam impedir esse sofrimento.
Faz parte dos caretas, personagens como a catita e a égua. Catita é um homem trajando roupas femininas, é a mulher dos caretas, vadia, que fica se oferecendo para os homens que estão assistindo a encenação. Enquanto estes ficam envolvidos, os caretas chegam e açoitam os distraídos.
A égua usa a roupa de um bicho muito feio. Este personagem pega a caveira de um animal que já morreu há algum tempo, prende a sua cabeça a um pau e amarra uma corda de maneira que, puxando abre e fecha a boca do animal. Com isso ameaça morder as pernas dos espectadores, assustando-os.
Os caretas ficam observando quando morre um animal para escolher a caveira. A diversão e o medo estão presentes no decorrer de todo o evento. Isso aparece também quando alguém tenta roubar a cana. Só os bons corredores escapam. E continuam as tentativas de roubar a quinta e as surras de pinhola até a madrugada de Sábado da Aleluia.